“O Egito escreve, o Líbano publica e o Iraque lê.” Este ditado, criado na década de 1960, reflete a divisão de papéis entre esses países, que eram os principais centros literários do Oriente Médio. Contudo, embora o Líbano fosse reconhecido pela sua habilidade editorial, ele também desempenhava um papel ativo na produção literária contemporânea, em árabe e francês.
Embora a obra mais lida mundialmente do Líbano, O Profeta, de Gibran Khalil Gibran, tenha sido escrita em inglês, a literatura libanesa em francês é representada por nomes como Amin Maalouf, Salah Stiété, Georges Shehade, Nadia Tueni, Arif Majdalani e a poetisa Vènus Khoury-Ghata. Em árabe, a lista de escritores inclui Mikhael Naime, May Ziedeh, Said Akel, Ragida Dergham, Amin El Rihani, Joumana Haddad, Adonis, Abbas Beydoun, Rachid El-Daif, Georges Corm, Michel Chiha, Nassim Nicholas Taleb, Mai Ghoussoub, entre outros.
Para compreender a literatura libanesa, é necessário voltar à segunda metade do século XIX, quando começou o renascimento literário e científico no Líbano. Durante este período, diversas universidades e escolas foram fundadas, destacando-se a Universidade Americana de Beirute (1866) e a Universidade Jesuíta de São José (1875). Esse movimento intelectual pavimentou o caminho para o florescimento literário.
Nos finais do século XIX, o movimento cultural denominado Nahda (ou “despertar”) surgiu no Egito e se espalhou pelas regiões árabes sob domínio otomano, incluindo o Líbano. Beirute se tornou um centro de atração para poetas e escritores árabes, graças à sua imprensa livre e à atmosfera intelectual vibrante.
A prosa narrativa moderna libanesa ganhou força com os romances de Tawfiq Yusuf Awwad, Maroun Abboud e Yusuf Habashi al-Ashqar, influenciados pelos naturalistas europeus e russos. Já nos anos 1960, escritores como Suhayl Idris, que se alinhavam ao movimento existencialista de Jean-Paul Sartre, introduziram uma nova onda de romances políticos. Nesse período, também se destacaram os romances proféticos de Tawfiq Yusuf Awwad e as histórias surrealistas de Elias Khoury.
Entre as escritoras, a temática da guerra se tornou um catalisador criativo, com nomes como Emily Nasrallah, Hanan al-Shaykh e Hoda Barakat, que logo seriam reconhecidas como as “Descentristas de Beirute”.
Nos anos 1980, um novo gênero literário emergiu: uma prosa que, ao invés de focar nas ideologias da guerra, se dedicava a representar o cotidiano do povo libanês durante o conflito. Escritores como Rashid al-Daif, Hasan Daoud, Iman Humaydan e Alawiya Subh se concentraram nas histórias pessoais e nas experiências humanas em tempos de guerra.
Com o início do novo milênio, uma nova geração de escritores surgiu, buscando recuperar a juventude e os sonhos perdidos devido à guerra. Rabih Jaber se destacou como o principal representante dessa geração, com obras que refletiam a reconstrução não apenas física, mas também emocional do Líbano.
A literatura libanesa, com sua pluralidade de vozes e experiências, continua sendo uma celebração da resistência e da resiliência do espírito humano. Em cada palavra escrita, vive o desejo inquebrantável de renascimento, de reconstrução e de amor — não só pela terra natal, mas também pela própria arte de criar. O Líbano, assim, não é apenas um cenário de dor e divisão, mas também de beleza e esperança, onde as palavras se tornam pontes entre os corações, unindo gerações e cruzando fronteiras.
E essa pluralidade não se limita apenas às letras; o Líbano também é rico em artistas cujas obras transitam entre a música, o teatro e a literatura. Figuras como Ziad Rahbani, que mescla sua habilidade musical com uma profunda reflexão política e social, são parte essencial dessa riqueza cultural. A obra de Rahbani, que será tema de outro post, também reflete a complexidade e a profundidade da alma libanesa, tornando-se, assim, uma extensão da literatura que transcende os limites da escrita e invade outros campos da expressão artística.
E enquanto o Líbano atravessa os desafios do presente, seus escritores, como poetas do amanhã, continuam a escrever suas histórias — não apenas de guerra e perda, mas também de paixão, de amor pela vida e pela liberdade. Assim, a literatura libanesa, acompanhada pela música e outras formas de arte, permanece eternamente viva, iluminando o caminho para aqueles que ousam sonhar.
© Revista Libanus
fotos: mondanite/ pinterest/ deslettres/ upsetpress/ vintage beirut/ Irmeli Jung/alfanar/ Ibrahim Malla/AFP/ Kheridine Mabrouk












2 Comments
Artigo fascinante! E muitos autores citados também figuram no livro “A poesia árabe moderna entre o Islã e o Ocidente”, de Slimane Zeghidour, o qual traduzi e está disponível para download gratuitamente no site da Editora Almádena.
Obrigado pelo comentário. Em tempo: Slimane Zeghidour é um autor notável, e seu livro A poesia árabe moderna entre o Islã e o Ocidente é uma leitura essencial para quem deseja aprofundar-se nesse universo. Parabéns pela tradução! É maravilhoso saber que está disponível gratuitamente no site da Editora Almádena, tornando esse tesouro literário acessível a um público ainda maior. Obrigado por compartilhar essa informação!Parabéns.