“A moda passa, mas as cicatrizes ficam.” – Dr. Ivo Pitanguy
No Líbano, há o que pode ser descrito como um “acordo implícito” entre a sociedade e a cirurgia plástica: um pacto silencioso que evita a discussão aberta sobre esse tema tão presente na vida cotidiana dos libaneses. O mito da cirurgia estética habita a mente do povo: “Muitos não gostam, mas muitos precisam; alguns têm curiosidade, mas vários sonham em realizar; no fundo, quase todos já fizeram ou, a qualquer momento, irão fazer.” A cirurgia plástica, então, se mistura à cultura libanesa moderna, como parte do processo de reinvenção pessoal e busca incessante por uma beleza idealizada.
A relação íntima do Líbano com a cirurgia plástica tem raízes profundas, sendo frequentemente associada à guerra civil dos anos 70. Este conflito devastador estimulou uma mentalidade pós-guerra de “viver como se não houvesse amanhã”, criando o terreno fértil para o crescimento da indústria estética. Nesse contexto, a cirurgia plástica e a indústria cosmética prosperaram, não só como forma de resgatar a autoestima, mas também como um reflexo de uma sociedade que, em muitos momentos, não priorizou investimentos no futuro.
Saído de um longo e demolidor conflito, o povo libanês desejava viver e ser feliz, disfarçando os sinais do tempo: rugas desaparecendo, papadas e olheiras escondidas, lábios mais volumosos. E a paixão do Líbano pela cirurgia plástica tornou-se um fenômeno cultural evidente, que ninguém poderia ignorar.
Até bem pouco tempo, as estatísticas apontavam que mais de 1,5 milhão de procedimentos estéticos eram realizados anualmente no país. Jovens circulavam pelas ruas com ataduras no nariz, ostentando essas marcas como um símbolo de beleza, orgulho e status socioeconômico. Para muitas mulheres, as cirurgias plásticas tornaram-se uma necessidade, não por desejo pessoal, mas pela pressão para seguir um “padrão de beleza” muitas vezes imposto pela sociedade. Os padrões estéticos globalizados, impulsionados por influências midiáticas e por ícones locais e internacionais, tornaram-se um reflexo da busca incessante pela perfeição.
Existem dois fatores principais que explicam a crescente demanda por procedimentos estéticos no Líbano:
A formação internacional dos cirurgiões plásticos: O Líbano é famoso pela excelência de seus profissionais, muitos dos quais se especializaram fora do país, especialmente no Brasil, onde realizaram estágios com o renomado Dr. Ivo Pitanguy e outros cirurgiões de renome internacional. O Líbano passou a ser visto como um destino de turismo médico, atraindo pessoas de várias partes do mundo que buscavam a qualidade dos procedimentos realizados pelos cirurgiões libaneses.
A influência das celebridades e das figuras públicas: Muitas mulheres e estrelas libanesas, ao submeterem-se a procedimentos estéticos, tornaram-se embaixadoras dessas tendências. Os narizes, bochechas e lábios de celebridades como Haifa Wehbe e Nancy Ajram se tornaram modelos a serem copiados. A estética dessas figuras públicas impulsionou a ideia de que, para estar “na moda” ou alcançar o status desejado, as cirurgias plásticas eram uma ferramenta indispensável. Esse fenômeno criou uma espécie de “pacote estético”, onde certos traços faciais tornaram-se sinônimos de beleza e prestígio social.
Entretanto, o Líbano está longe de ser uma sociedade monolítica em relação a esse fenômeno. De um lado, temos aqueles que defendem e praticam procedimentos estéticos sem se importar com a opinião dos outros, buscando uma beleza idealizada, muitas vezes sem medir as consequências. De outro lado, estão os críticos, aqueles que ironizam o fenômeno, apontando que muitas pessoas acabam adquirindo rostos parecidos, resultando, em alguns casos, em deformações. Esse debate se intensifica com a crescente popularidade de procedimentos como a harmonização facial, que, ao invés de ser uma cirurgia invasiva, utiliza técnicas não-cirúrgicas, como preenchimentos, botox e lipoaspiração facial, para criar uma aparência mais “equilibrada” ou “perfeita”.
A harmonização facial tornou-se um dos procedimentos mais procurados nos últimos anos. Com o avanço da tecnologia e técnicas minimamente invasivas, é possível alterar contornos faciais, corrigir imperfeições e suavizar sinais de envelhecimento sem a necessidade de um bisturi. Esse procedimento, muito popular no Líbano, reflete uma mudança nas preferências da sociedade: enquanto antes a cirurgia plástica era a solução mais procurada, hoje as opções menos invasivas atraem um público mais jovem, que busca resultados rápidos e com menor tempo de recuperação.
Entre esses dois grupos, surge um terceiro, mais ponderado: aquele que entende que cada pessoa tem o direito de escolher a aparência que deseja, sem julgamentos. Para essas pessoas, a liberdade de decisão sobre a própria imagem é vista como um direito inalienável, desde que a escolha seja feita de forma consciente e responsável. Afinal, o que realmente importa é a dignidade da fisionomia e a autenticidade de cada ser humano, independentemente dos padrões estéticos da sociedade.
Assim, a cirurgia plástica e a harmonização facial refletem não apenas a busca pela beleza, mas também uma maneira de lidar com os traumas históricos e sociais, de afirmar identidade e, muitas vezes, de dar um passo em direção a uma versão idealizada de si mesmo. No entanto, é essencial lembrar que, como qualquer tendência, as cicatrizes – sejam elas físicas ou emocionais – ficam.
© Revista Libanus
Ilustração: Jasper Loh
fotos: pinterest

