“A matemática do tempo é simples. Você tem menos do que pensa e precisa mais do que acha.”
No Brasil, poucos nomes estão tão ligados à criatividade e ao ensino da matemática quanto Malba Tahan. Por trás desse pseudônimo exótico se escondia Júlio César de Mello e Souza (6 de maio de 1895 – 18 de junho de 1974), um professor, educador, matemático e escritor do modernismo brasileiro. Conhecido principalmente por seu livro O Homem que Calculava, Malba Tahan revolucionou a maneira de ensinar matemática, combinando problemas matemáticos com aventuras inspiradas nos contos das Mil e Uma Noites.
A Criação de Malba Tahan
Júlio César adotou o pseudônimo Malba Tahan para conferir autenticidade às suas histórias de temática árabe, criando também o fictício tradutor Prof. Breno Alencar Bianco para reforçar a verossimilhança das narrativas. Essa estratégia permitiu que suas obras, ambientadas no Oriente Médio, encantassem leitores tanto no Brasil quanto no exterior, fazendo com que muitos acreditassem que Malba Tahan era um escritor árabe.
Revolução no Ensino da Matemática
Como professor, Malba Tahan foi um verdadeiro inovador. Ele introduziu jogos e métodos criativos nas aulas de matemática, rejeitando os métodos tradicionais e monótonos. Sua abordagem lúdica e envolvente tornou a matemática acessível e divertida, incentivando a criatividade e a descoberta entre seus alunos. Como um professor ousado para a época, Malba Tahan gostava de ir muito além do ensino teórico e expositivo. Por isso, em suas aulas, Tahan elaborava enigmas para iniciar suas explicações. Em seu modo de brincar com as coisas da Matemática, dizia que existem números alegres e bem-humorados, frações tristes, multiplicações carrancudas e tabuadas sonolentas, pois, para ele, os números e as propriedades numéricas eram como seres vivos.
Malba Tahan criticava duramente professores de Matemática. Para ele, “o professor de Matemática em geral é um sádico. Ele sente prazer em complicar tudo”. Ele também nunca atribuía notas “zero” nem reprovava seus alunos. Sobre essa postura, ele perguntava: “Por que dar zero se há tantos outros números?”. Ao longo de sua carreira, ministrou mais de 2.000 palestras no Brasil e no exterior, defendendo um ensino inclusivo e dinâmico que valorizava a participação ativa dos estudantes.
Carreira Literária e Obras Principais
A carreira literária de Júlio César começou com publicações em jornais sob pseudônimos. Seu talento foi reconhecido quando criou histórias árabes que rapidamente ganharam destaque. Além de O Homem que Calculava, suas obras mais conhecidas incluem Céu de Allah e Contos de Malba Tahan, todas reconhecidas por sua originalidade e capacidade de integrar lições matemáticas em narrativas envolventes. O Homem que Calculava, sua obra mais famosa, já foi traduzida para mais de 12 idiomas, consolidando seu impacto global.
A Conta dos Camelos
Uma das histórias mais emblemáticas de Malba Tahan é “A Conta dos Camelos”, retirada de O Homem que Calculava.
Certa vez, um viajante e o matemático Beremiz encontraram três irmãos discutindo a herança de seu pai: 35 camelos. O testamento estipulava:
- O filho mais velho deveria receber metade dos camelos;
- O irmão do meio, um terço;
- O caçula, um nono.
A divisão parecia impossível sem recorrer a frações, mas Beremiz propôs uma solução inusitada: adicionou seu próprio camelo, totalizando 36. Assim, a divisão foi feita:
- O mais velho recebeu 18 camelos (metade de 36);
- O irmão do meio, 12 (um terço de 36);
- O caçula, 4 (um nono de 36).
A soma deu 34 camelos, sobrando dois: Beremiz devolveu um ao viajante e ficou com o outro como recompensa por sua inteligência.
Essa história, além de demonstrar a lógica matemática, transmite valores como colaboração, justiça e raciocínio ético. É um exemplo prático de como a matemática pode ser usada para resolver conflitos e promover soluções criativas e harmoniosas.
Legado e Impacto
O impacto de Malba Tahan no ensino da matemática é inestimável. Ele demonstrou que ensinar pode ser um ato criativo, onde o professor é um contador de histórias que desperta o encantamento pelo saber. Suas metodologias prefiguram tendências atuais como a gamificação e o uso de tecnologias interativas no ensino, tornando suas lições mais relevantes do que nunca.
Além de suas contribuições pedagógicas e literárias, Júlio César também atuou como diretor da Revista Al-Karizmi, que publicava recreações matemáticas, jogos, curiosidades e problemas, e participou ativamente do movimento de modernização do ensino da matemática no Brasil junto a outros educadores renomados.
Reconhecimentos e Memória
Em homenagem a suas contribuições, o Dia Nacional da Matemática foi instituído na data de seu nascimento, celebrando aquele que mostrou que a matemática é uma poderosa ferramenta para despertar a imaginação e a curiosidade. Júlio César faleceu aos 79 anos, vítima de um ataque cardíaco, deixando um legado singular na educação e literatura brasileiras.
Malba Tahan deixou uma marca indelével no mundo da educação e da literatura. Suas histórias continuam a inspirar novas gerações, provando que a matemática pode ser tão fascinante quanto qualquer aventura narrativa. O Homem que Calculava não é apenas um livro de matemática, mas uma celebração da criatividade, lógica e do poder das histórias para transformar o aprendizado.
Uma Pergunta para Você:
E você, já imaginou como as histórias podem transformar o aprendizado? Como Malba Tahan, todos nós podemos encontrar maneiras criativas de ensinar e aprender, transformando o conhecimento em uma jornada inesquecível. Talvez esteja na hora de abrir O Homem que Calculava novamente e redescobrir como um simples camelo pode mudar a forma como vemos o mundo.
© Revista Libanus
fotos: pinterest


7 Comments
Que delicia de texto!
Obrigado pela sua leitura, Mariana.
Realmente Malba Tahan, fez historia com seus cálculos.
Desde garoto acompanhei os problemas que ele calculava.
Professor Souza ,cidade na legião dos lagos tem o nome em homenagem a ele.
No calculo dos camelos a explicação apresenta um erro.
Quem emprestou o camelo foi o viajante e não Beremiz.
Foi só uma observação.
Muito bom o texto e a homenagem ao professor Julio Cesar de Melo e Souza
Prezado Sr. Assad. Agradecemos a sua leitura e observações. Quanto ao seu comentário, sim, o inteligente Beremiz, sugeriu pegar o camelo de seu amigo viajante. Na frase final “A soma deu 34 camelos, sobrando dois: Beremiz devolveu um ao viajante e ficou com o outro como recompensa por sua inteligência.” subintende-se que o camelo que entrou na soma era, de fato, do viajante.
Outro filho de libaneses, que deixou um legado na cultura brasileira, foi Jose Miguel Assad,
Cujo pseudônimo é Berliet júnior.
Procurem a trajetória dele na radio,cinema,e jornalismo .
Prezado Sr Assad. Sobre o escritor Jose Miguel Assad, cujo pseudônimo é Berliet júnior, temos as informações todas dele, inclusive o livro. “Filho de pais libaneses, nascido em 07 de fevereiro de 1906, num sobrado da Praça da República, no Rio de Janeiro. Em 1922, foi enviado para o Líbano (Aamicht), com seus cinco irmãos, ingressando, mais tarde na Legião Estrangeira (Alepo/Síria), e permanecendo até 1928. Lá, ele dirigiu uma ambulância da marca Berliet (a qual originou seu apelido na época) e, cuidava, também, do setor de pombos correios. Foi condecorado pelo Governo Francês, por Bonne Conduite.” Como jornalista, escreveu “Meu Minuto Trágico” e “Eu Acuso”, dentre outros. Escreveu “Mercado de Bagdad”, “O Cego do Cairo”, “O Romance de um Imigrante”, “O Homem que Volta”, dentre outros. Foi contemporâneo e colega de estúdio e criação de Ari Barroso, Ademar Casé, Carlos Manga, Victor José Lima, José Carlos Burle, dentre centenas. Iniciou muitos na carreira do rádio, dentre tantos, José Bonifácio (Boni).
Escreveu, dirigiu e contracenou com Oscarito, Grande Otelo, Ilka Soares, José Lewgoy, Josete Bertal, Renato Restier, Rosa Sandrini e muitos outros. No cinema idealizou, roteirizou e/ou dirigiu filmes, tais como: “Barnabé tu és meu” (1951), “Carnaval Atlântida” (1952), “Os Três Vagabundos” (1952), “Depois eu conto” (1956), “Com Jeito Vai” (1957), “Na Mira do Assassino” (1967).
Faleceu em 08/03/1973, uma quinta-feira, após o carnaval carioca. Sua obra ficou imortalizada em audiovisual, impressos, e também, nos artistas que carregam seu legado.
O seu livro icônico “Mercado de Bagdad ” foi relançado no dia 07 de fevereiro de 2020, na Livraria Argumento, do Rio Design da Barra, na Barra da Tijuca, marcando os 114 anos de seu nascimento.” Obrigado pela sua leitura e por nos acompanhar.
Muito obrigado pela biografia de Berliet Junior, meu querido pai.
Quaisquer informações sobre ele estamos a disposição.
Que Allah proteja o nosso Líbano.