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Cristãos do Oriente, quem e de onde são eles?

Cristãos do Oriente! A expressão, que é recente, já está incorporada ao jargão político e midiático e, vale salientar, principalmente ao francês. Assim como ela sempre soa como um clichê, cada um crê saber do que se trata, mas na verdade ninguém sabe exatamente a quem ela se refere.

Por ocasião do Natal católico em 25 de dezembro e da Natividade ortodoxa em 7 de janeiro, a expressão é ressaltada e se coloca novamente a questão do devir – e quase nunca do passado e do presente – desses “cristãos do Oriente”, sem outra indicação sobre suas identidades, a não ser sua fé em Jesus e seu “domicílio”, pode-se dizer, em países do Islã. No entanto, esses discípulos de Cristo se movem à moda da terra da Galileia, radicam-se em um humo, perpetuam um legado, usam uma língua própria, encarnam-se em uma nação, participam em uma civilização. Todos os critérios que a expressão oculta para fixar e destacar um signo, a Cruz, flutuam sobre um Oriente onde reina outro símbolo, o Crescente, do qual ninguém se dá ao trabalho de determinar os limites e os contornos.

Um humo milenar 

Portanto, a expressão alude a qual Oriente? Se há, e desde sempre, um “cristianismo oriental”, o qual, englobando mais de uma dúzia de Igrejas, se estende de Constantinopla a Malabar no oceano Índico, não há propriamente cristãos do Oriente. E, enfim, a quais cristãos estamos nos referindo aqui? Católicos, ortodoxos, protestantes, adventistas, evangélicos? Certamente há um Oriente e cristãos que lá vivem ininterruptamente desde a era dos apóstolos, mas é preciso sublinhar que não existem “cristãos do Oriente”, enquanto uma entidade própria, um corpo social à parte, identificável no plano geográfico e nos níveis histórico e político.

Por mais estranho que pareça, a expressão não remete ao Oriente, ou mais precisamente ao Oriente Próximo e ao Oriente Médio. Na verdade, esmiuçando o que se inscreve sob esse rótulo, verifica-se que ele recobre um determinado espaço geográfico que é o Oriente árabe. E aqui está o cerne da questão. Afinal, esses discípulos de Cristo não são cristãos itinerantes, pois fincam suas raízes em um humo milenar, cultural, nacional. Portanto, eles não são “orientais”, mas iraquianos, sírios, libaneses, egípcios, jordanianos, palestinos e até os israelenses entre eles. Há árabes cristãos, os quais tiveram e ainda têm um papel fundamental no desenvolvimento da civilização árabe-islâmica. Eles foram os pioneiros da Nahda, o Renascimento árabe no final do século XIX e início do século XX. Enciclopedistas, escritores, editores, artistas, figuras políticas, eles travaram todos os combates. Se somarmos a isso a diáspora na América do Norte e sobretudo na América Latina, seu número total é em torno de 25 milhões, em sua maioria do rito ortodoxo. Citamos, por exemplo, a cantora libanesa Feyrouz, o cineasta egípcio Youssef Chahine, o romancista libanês Elias Khoury ou ainda o palestino-israelense Emile Habibi, o acadêmico Amin Maalouf, o músico Ibrahim Maalouf e o cantor e compositor Louis Chédid. Expatriados, sua contribuição a seus países de adoção é inegável. O mesmo se pode dizer do crooner canadense Paul Anka, da estrela colombiana Shakira, da atriz mexicana Salma Hayek, do ex-presidente do Brasil Michel Temer e do ambientalista estadunidense Ralph Nader. 

Coabitação entra ano e sai ano 

Esses cristãos, porém, compartilham a mesma fé que armênios na Síria, Líbano, Palestina, Jordânia e Egito, e caldeus no Iraque. Uns e outros são arabófonos, mas falam também caldeu e siríaco, idiomas primos da língua árabe. Sua identidade se ancora e se encarna em um povo, em uma nacionalidade, a despeito da segregação dissimulada presente aqui ou acolá, indo de atentados islamistas contra seus lugares de culto, notadamente no Egito, a suplícios terríveis, quase genocidas, sob a palmatória da organização terrorista Estado Islâmico. 

Devido à sua religião, eles sofrem tanto ou até mais que seus compatriotas muçulmanos, mas lutam ao lado deles através de partidos políticos e, quando é preciso, com armas nas mãos, todos movidos por um mesmo ideal patriótico. Assim como os ortodoxos majoritários, católicos, maronitas, latinos, caldeus, coptas, armênios, anglicanos ou evangélicos, esses cristãos se enraízam em um país próprio, tendo uma determinada nacionalidade e uma língua específica, além do árabe, idioma oficial em todos os Estados do Oriente Próximo. Todos vivem em nações plurirreligiosas e multiétnicas, a maioria das quais é muçulmana, exceto Israel, onde vive uma minúscula comunidade católica de língua hebraica, além de outros cristãos, árabes em sua maioria esmagadora, embora a igualdade de direitos nem sempre prevaleça devido ao caráter não laico dos Estados do Oriente Próximo.

Entra ano e sai ano, eles coabitam há um milênio e meio com vizinhos muçulmanos, com os quais partilham a língua e a cultura, participam na mesma civilização “árabe” na qual o Islã é obviamente um elemento importante, mas não o único, pelo contrário. Cristãos, é claro, mas também alauítas, yazidis, curdos, ismaelitas, armênios e judeus. E pelo menos até a criação de Israel, todos foram e continuam sendo atores fecundos, sem cuja vigorosa contribuição o mundo árabe se perderia de corpo e alma.

Encruzilhada universal 

Essa pluralidade de crenças, rostos e até nas paisagens – das neves do Líbano ao deserto da Arábia – mergulha suas raízes milenares no humo dessa encruzilhada universal, o único ponto no planeta onde se juntam três continentes, a Ásia, a África e a Europa. Jamais, em momento algum, o Oriente Próximo foi domínio exclusivo de um só povo ou de uma fé única. A esse respeito, é preciso reabrir o Evangelho. O que lemos no Livro dos Atos dos Apóstolos*? Que há dois mil anos em Jerusalém, no dia de Pentecostes, lá estavam: “Partos, medos e elamitas; habitantes da Mesopotâmia, Judeia e Capadócia, do Ponto e da província da Ásia, da Frígia, Panfília, Egito e das partes da Líbia próximas a Cirene; visitantes vindos de Roma, tanto judeus como convertidos ao judaísmo; cretenses e árabes. Todos nós temos ouvido em nossas próprias línguas falar das maravilhas de Deus!”. 

*Atos dos Apóstolos 2, 1-11

Tradução de Thaïs Costa
– Artigo publicado pelo autor no site da emissora TV5 Monde  (https://information.tv5monde.com) em 25 de dezembro de 2024. Sliman tem dois livros lançados no Brasil: A poesia árabe moderna e o Brasil (Editora Brasiliense, 1982) e A poesia árabe moderna entre o Islã e o Ocidente (Almádena Editora, 2024, com versão gratuita em e-book que pode ser baixada em www.almadenaeditora.com).
fotos: pinterest/Getty Images
Segundo uma nota do Office Français de Protection des Réfugiés et Apatrides em 2016, os cristãos representam 8 a 10% da população total da Síria, sendo uma das comunidades cristãs mais antigas no mundo.
A prece cristã do Pai Nosso escrita em caligrafia árabe: "Pai Nosso que estais no céu, santificado seja o vosso nome, venha a nós o vosso reino, seja feita a vossa vontade assim na terra como no céu".
Argelino radicado em Paris desde a juventude. É escritor, jornalista e editorialista político na TV5 Monde em Paris.

4 Comments

  1. Achei muito interessante a reportagem sobre os cristãos na Arábia.
    Existe lá ,o cristão espirita?

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    • Olá, José Roberto, só sei por experiência própria que os berberes do Marrocos praticam rituais semelhantes aos da umbanda, nos quais a hipnótica música percussiva faz os participantes entrarem em transe. Esse tipo de ocasião se chama “ahouach”.

      Responda
  2. Mais uma vez, Thaís, um artigo esclarecedor para mim.

    Responda
  3. Muito obrigado Thais.
    Excelente esclarecimento.
    Nunca poderia imaginar

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