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Ocidente, um conceito inoxidável?

Ocidente! Qualquer editorial de atualidades ou explicação sobre geopolítica que vá a fundo acaba evocando, invocando ou convocando essa palavra. Por ser tão batida quanto um mantra, todos acham que sabem seu sentido, mas basta perguntar a qualquer um o que ela implica para constatar seu caráter vago e equívoco. 

Ocidente é um conceito geográfico? Para tirar a prova, vamos abrir um mapa: onde ele começa e quais são seu espaço e contornos exatos em um planisfério? Será que ele é a sede geográfica da Cristandade como sugere a expressão “Ocidente cristão”? Se esse for o caso, ele inclui a América Latina e a África que englobam dois terços dos fiéis de Cristo? Ou será que ele é um conceito ideológico produzido pela Guerra Fria? Nesse caso, ele seria anacrônico. 

Europa e Magrebe, uma raiz em comum

A priori, o termo ocidente vem da geografia, mas na realidade procede da história ou, a rigor, da história da geografia e também da geografia da história. Ele remonta à noite dos tempos, à alvorada da história. Portanto, o Ocidente surgiu no Oriente, berço da história e da geografia. 

Assim, visto do Oriente, o Ocidente é “ereb”, palavra semita que designa o poente e inclusive aparece em um alto-relevo assírio do século VIII a.C. Os gregos se apropriam e alteram a palavra para “erep”, de onde deriva “Europa”, que se aplicará ao continente situado a oeste do Oriente e ao norte da África. O mito de Zeus, que transformado em touro rapta a princesa Europa, filha do rei da Fenícia, no litoral levantino, ilustra amplamente a origem e a filiação do termo. Em contraponto, o termo “assou”, o levante, é atribuído à Ásia.

Desde então, “Europa” e “Ásia” se aplicam ao Levante e à Grécia e, frequentemente, às margens leste e oeste do mar Egeu, com oriente e ocidente sendo apenas duas facetas de uma mesma área. Posteriormente, os dois nomes se aproximam e se completam quando o império se parte em dois: o Império Romano do Oriente e o Império Romano do Ocidente, com o eixo de fratura vertical se estendendo do Adriático ao golfo de Sirte na Líbia. 

Como bons herdeiros do Oriente antigo e da civilização helenística, os geógrafos árabes se baseiam no antigo radical “ereb” – “ghrb” em árabe – para nomear o Magrebe, o Poente, o Ocidente do Islã, o qual engloba o Norte da África e também a Andaluzia. Assim, por mais surpreendente que pareça, Magrebe e Europa procedem da mesma raiz semita. “Europa e Magrebe, o mesmo comeback”, diz uma expressão inglesa.

 A queda dos impérios

A divisão entre impérios do Oriente e do Ocidente, seja entre a Bizâncio ortodoxa e a Roma católica, continuará em vigor até a tomada de Constantinopla pelos turcos em 1453. A partir daí, o Oriente designará o Império Otomano como muçulmano e o Ocidente como a cristandade, e a fronteira entre ambos os campos não mudará estendendo-se sempre do Adriático ao golfo de Sirte. 

Todo o século XIX está inscrito sob o capítulo da famosa “questão do Oriente”, ou seja, a rivalidade secular entre as potências do Ocidente para subjugar, depois enfraquecer e então decapitar e partilhar os despojos do Império Otomano, o qual foi chamado pelo czar russo Nicolau I de “homem doente da Europa”. 

O fim da Primeira Guerra Mundial foi marcado pela desintegração de cinco impérios – o otomano e quatro europeus (o francês, o britânico, o russo e o austro-húngaro). O Ocidente, porém, conseguiu impor sua tutela sobre o Oriente por meio do Mandato Francês no Líbano e na Síria e do Mandato Britânico na Palestina, Jordânia e Iraque. Então, a obsessão por um “declínio” aflora no debate público de Londres a Berlim, passando por Paris. 

O medo dos “ocidentalistas”

Em 1923 é lançada em Berlim A decadência do Ocidente, de Oswald Spengler, uma obra em dois volumes que exercerá grande impacto intelectual no período entreguerras. O medo atravessa o Atlântico e se traduz em 1920 por uma obra com título eloquente, A maré montante da cor – A ameaça contra a supremacia mundial branca, do eugenista estadunidense Lothrop Stoddard. Até hoje esse livro é a bíblia dos “ocidentalistas” apavorados com a miscigenação étnica que, para eles, é a causa de um declínio mortal. O fim da Segunda Guerra Mundial consagra uma nova divisão do Velho Mundo, desta vez entre o Leste comunista e o Oeste liberal, sempre com o mesmo eixo passando no meio do Adriático até o golfo de Sirte. 

Na Guerra Fria a seguir, o conceito do Ocidente “cristão” refloresce em oposição ao Oriente “ateu”. O Ocidente logo rima com “mundo livre”, ao qual se junta o qualificativo “judaico-cristão”. Claramente anacrônico, tal adjetivo remonta a meados do século XIX e evoca principalmente os primeiros discípulos de Jesus, todos oriundos do universo judaico, com o fito de designar um judeu que se tornou cristão. Mas não há legado judaico-cristão se não houver igualmente um legado judaico-muçulmano, já que ambos provêm do mesmo tronco abraâmico. 

Em consequência do desmembramento do Leste comunista, o Oriente volta a ser “muçulmano”, sobretudo após os ataques terroristas de 11 de setembro nos Estados Unidos que levaram tropas militares a devastarem o Iraque, depois o Afeganistão e, por fim, a Líbia. O Ocidente acaba por escolher o lado dos Estados Unidos e de seus aliados próximos, ou seja, a Otan. 

Em três mil anos, como uma poça de mercúrio movediça, Oriente e Ocidente mudaram o plano de fundo e o conteúdo, sem jamais ter tido contornos nem projeção cartográfica bem definidos.

– Tradução de Thaïs Costa
– Artigo publicado na no site da emissora TV5 Monde em Paris: (https://information.tv5monde.com) em 2 de dezembro de 2024.
O autor tem dois livros lançados no Brasil: A poesia árabe moderna e o Brasil (Editora Brasiliense, 1982) e A poesia árabe moderna entre o Islã e o Ocidente (Almádena Editora, 2024, com versão gratuita em e-book que pode ser baixada em www.almadenaeditora.com).
Mosaico representando Europa raptada por Zeus
O Império Romano do Ocidente e o Império Romano do Oriente
Antiga edição francesa do volume II da obra de Spengler
Edição original da “bíblia racista” de autoria de Stoddard
Blocos do Leste e do Oeste durante a Guerra Fria
Argelino radicado em Paris desde a juventude. É escritor, jornalista e editorialista político na TV5 Monde em Paris.

1 Comment

  1. Muito interessante a análise histórica desse tema tão amplo e essencial. Ótima tradução também!

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