“Dentro da gente tem alguém que procura pelo seu nome: somos todos primos sem o mesmo sobrenome.”
A cultura libanesa é rica em provermos uma identidade compartilhada através dos laços familiares, e muitos provérbios populares refletem a presença dos tios e primos dentro desse contexto.
Um exemplo disso é o ditado árabe: “الولد لو بار، بيطلع تلتينو للخال” (el walad law barr, bietlaa telteinu lal khal) -tradução livre- e que significa que a criança tem 2/3 dos genes do tio materno. Tem o outro provérbio famoso: “أنا على أخوي وأنا وأخوي على ابن عمي وأنا وأخوي وابن عمي على الغريب” (anna ala akhouieh, ou anna ou akhouieh ala iben ammi, ou anna ou akhouieh ou iben ammi ala el ghareeb), traduzido livremente como: “Eu vou contra o meu irmão; eu e meu irmão vamos contra o meu primo; eu, meu irmão e o meu primo vamos contra o estranho.”
Esses provérbios ilustram como a comunidade libanesa valoriza a presença de parentes consanguíneos próximos, ainda que essas tradições estejam, em alguns casos, se tornando mais tênues.
A relação entre os membros da família libanesa se constrói a partir de figuras fundamentais: pais e avós (maternos e paternos), mas também dos tios (as tias) e primos (maternos e paternos). Embora esses parentes desempenhem papéis distintos, há algo de único na forma como a cultura libanesa percebe esses laços.
Os tios maternos, chamados “Kahlo”, e os tios paternos, chamados “Ammo”, têm uma posição importante, assim como as tias maternas (“Khalto”) e as tias paternas (“Amto”). É interessante notar que, em muitos casos, o título genérico para tios e tias, como “tante”, remonta à influência colonial francesa.
Na narrativa árabe, existe uma ideia fascinante sobre as diferenças entre os tios e tias de cada lado da família. Diz-se que o Khal (tio materno) é mais “solidário” do que o Amm (tio paterno), pois o Khal se vê em uma espécie de “disputa imaginária” com o cunhado, e não com sua própria irmã, a mãe de seus sobrinhos. De maneira semelhante, a Amma (tia paterna) é mais “carinhosa” do que a Khale (tia materna), visto que ela também está em uma disputa com a cunhada, e não com seu irmão, o pai dos sobrinhos. Essas “disputas imaginárias” formam um terreno peculiar de relações familiares, onde o amor, o respeito e a competição coexistem.
Quanto aos primos, esses transitam entre laços de admiração e momentos de estranhamento, sem uma clara distinção entre os primos maternos e paternos. No entanto, tende-se a haver uma leve aproximação entre os primos paternos, provavelmente pela convivência mais próxima. Essa dinâmica, embora não rigidamente definida, ilustra como a família libanesa é composta por um emaranhado de sentimentos que alternam entre afeição e distância.
Entre amor, carinho, disputas e estranhamentos, tios, tias e primos seguem desempenhando papéis fundamentais nas histórias familiares dos libaneses, reforçando a complexidade e a beleza dessa rede de relações.
© Revista Libanus
1 Comment
Muitíssimo bem explanado!