No trânsito lento de um país ferido, duas janelas se abrem como duas pequenas varandas da alma.
De uma delas surge uma mão. Na outra, outra mão responde.
Entre as duas, passa um pedaço de pão — simples, silencioso, quase sagrado.
São crianças deslocadas no Líbano.
Crianças que ainda não aprenderam as palavras complicadas dos adultos: fronteira, guerra, sectarismo, vingança.
Elas conhecem apenas os gestos elementares da humanidade.
Há uma pergunta que ninguém consegue responder:
no Líbano nasce primeiro a inocência ou a solidariedade?
Talvez a inocência ensine a dividir.
Talvez a solidariedade seja apenas a inocência que se recusou a morrer.
Nesse pequeno gesto — um pão atravessando o espaço entre dois carros — começa algo maior que a própria infância.
Começa a lenta construção do homem.
Porque no Líbano o homem não nasce apenas da terra ou da história.
Ele nasce do encontro entre a dor e a generosidade.
E talvez seja por isso que, mesmo quando o mundo parece desabar,
ainda há uma criança estendendo a mão pela janela.
Como se dissesse, em silêncio:
enquanto houver pão dividido, ainda haverá humanidade.




2 Comments
O mundo precisa de poetas e de poesias. Fenômeno que a estupidez não consegue matar.
Excelente