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Radioamador: Roland Kahlil Gebara e os encontros imaginários dos imigrantes libaneses

“Papa, Yank, One, Bravo, India, Mike, prossiga. Câmbio! Está na escuta? PY1BIM, câmbio final.” As palavras dos operadores radioamadores eram o refúgio dos imigrantes, retendo seus sonhos em meio ao chiado das transmissões. As vozes dos parentes chegavam distorcidas, criando um misto de choro e sorriso, uma algazarra de sentimentos que traduzia a esperança e a saudade de quem estava longe. Naqueles momentos, o mundo se resumia ao som do rádio – e nada mais existia além disso.

O serviço de radioamadorismo, que começou com as primeiras transmissões de rádio no século XIX, continua vivo, mesmo com o avanço da internet, celulares e aplicativos. A transmissão por ondas curtas ainda mantém sua relevância, com muitos adeptos, inclusive no Brasil.

Nos anos 70, enquanto o terror da guerra no Líbano se abatia sobre as famílias, uma esperança se espalhava pelas ondas de rádio. No Rio de Janeiro, onde a comunicação direta era impossível, um nome se tornou sinônimo de alívio para os imigrantes libaneses: Roland Khalil Gebara. Ele possuía um rádio amador e colocava-o à disposição dos refugiados e imigrantes que desejavam notícias de seus entes queridos. Roland, sem saber, se tornou a personificação da fé das famílias libanesas, um farol de esperança em tempos de desinformação.

Comerciante nato e altruísta, Roland foi proprietário da loja Khalil M Gebara, trabalhou como diretor de instituições sociais e comunitárias, como o Clube Sírio e Libanês do Rio de Janeiro, e desempenhou papéis importantes na Igreja Melquita de São Basílio. De 1980 a 1992, foi secretário e tesoureiro da Sindilojas, e também vice-presidente da CDL-Rio entre 2007 e 2009. Além disso, ocupou funções no conselho de diversas entidades, sempre com o objetivo de fortalecer a comunidade. Roland faleceu em 11 de janeiro de 2011, deixando um legado de dedicação e carinho por sua comunidade.

No entanto, o vínculo de Roland com o radioamadorismo ia além de suas funções técnicas. Ele sabia, no fundo, que seu papel era uma extensão imaginária do afeto daqueles que ansiavam por uma palavra de conforto, uma notícia, ou uma explicação para o inexplicável. Ele se tornara, de maneira quase simbólica, a ponte entre as famílias distantes, conectando-as através do som de suas ondas.

Até hoje, ainda se escutam os ecos de frases em árabe que atravessavam as ondas do rádio: “Ya albi, ya rouhi, nenha kilna mechtekeen laelkun, yeeberni hal saout, aimata jeein, taaou jibuna..”. Eram palavras de saudade, de pedido, de um socorro camuflado nas ondas do rádio, transmitido por aqueles que esperavam, desesperadamente, por notícias. No alto-falante do rádio de Roland Gebara, esses pedidos eram ouvidos e transformados em esperança. Cada chamada era uma demonstração do poder da comunicação, não só técnica, mas profundamente humana.

fotos: pinterest / Sr Roland Khalil Gebara 
Roland Khalil Gebara 
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Equipe da Revista e do Blog

2 Comments

  1. Excelente texto ! Ações empáticas e amorosas que demonstram a generosidade de Roland Khalil Gebara !

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  2. Excelente artigo
    Me lembro dessa época e da ida em busca de notícias

    Responda

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