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Beirute reafirma a resiliência e exibe contradições enquanto comemora a vida

Quem apostava no fim da famosa resiliência dos libaneses depois das tragédias que se empilharam no país com a crise econômica de 2019, a explosão do porto de 2020 e os ataques de Israel do ano passado está derrotado.

Beirute está mais viva do que nunca, com moradores e turistas caminhando na Corniche, contemplando o pôr do sol na Raouche, bebendo nos cafés em Hamra, passeando nas galerias de arte em Gemmayzeh ou aproveitando as noites ainda quentes nos rooftops barulhentos e animados que se espalham pela cidade.

Até mesmo a escritora Joumana Haddad, que profetizou o fim da resiliência libanesa em artigo publicado no jornal americano The New York Times no auge dos ataques israelenses em 2024, inaugurou recentemente um café que é também livraria e tem garantido muitas noites animadas em Beirute.

Difícil, é claro, escrever sobre o Líbano e qualquer país do Levante sem enfatizar a precisão nas datas. Na região, tudo pode mudar a cada instante e a história se constrói em tempo real, num senso permanente de urgência. Dito isso, a Beirute que encontrei na segunda quinzena de setembro, na transição do verão para o outono, é uma cidade mais uma vez renascida.

Todos os grandes desafios estão lá, convivendo com as maravilhas. Os picos de luz continuam, diante da insistente dificuldade de abastecimento de energia elétrica. A Raouche, cenário dos mais lindos crepúsculos, no dia 25 de setembro foi transformada em tela de cinema com a projeção das fotos de líderes do Hezbollah, no clímax das manifestações que marcaram um ano da morte de Hassan Nasrallah.  Os drones de Israel continuam sobrevoando a metrópole que o jornalista inglês Robert Fisk chegou a chamar de “capital sem país”.

Diante de tantas complexidades, é importante ressaltar que este texto pretende ser apenas um relato de viagem, um diário de bordo afetivo para compartilhar as impressões de uma neta de avós nascidos em Bsharri, que visitou o país, mais uma vez, de férias, e não abre mão de ser turista onde o sangue ancestral corre mais feliz nas veias. Impossível renunciar ao maravilhamento de ser viajante no Líbano, onde cada viagem é uma oportunidade de colecionar epifanias.

Gemmayzeh – história com charme

A rua Gouraud e arredores estão plenamente recuperados da explosão do porto de 2020 e, no final do verão, recebiam viajantes de todo o mundo. Não há muitas ofertas de hospedagem na região, mas hotéis boutique instalados em casas tradicionais muito bem conservadas ou recuperadas se misturam a albergues e muitos bares e restaurantes. O resultado é um clima de festa noturna permanente.

A leitura do livro Líbano, Labirinto, da portuguesa Alexandra Coelho, suscitou a curiosidade por essa área. Do quarto com vista para a escadaria Saint Nicolas, já na chegada, uma linda surpresa: a frase de Khalil Gibran no banner gigante pendurado em frente à pequena varanda, palavras que são um monumento à resiliência: “Your Lebanon is empty and fleeting, whereas my Lebanon will endure Forever”. (Seu Líbano é vazio e passageiro, enquanto o meu Líbano vai durar para sempre).

O hotel é muito bonito e confortável, tem apenas 12 quartos e, apesar de ostentar a arquitetura típica libanesa e a localização na Gouraud, é feito sob medida para gostos globalizados. Uma foto do presidente francês Emmanuel Macron, em pose descontraída no restaurante, enfeita uma estante.  O cardápio do café da manhã é mais adequado para uma hospedagem na França do que para os amantes, como eu, da mezze libanesa.

As idiossincrasias, no entanto, valem a pena. Bem ao lado podemos nos deliciar, por exemplo, no restaurante Le Chef, com comida libanesa raiz, cardápio de papel escrito a mão, garçom um pouco mal humorado e ao mesmo tempo simpático e uma foto de Russell Crowe com um agradecimento público ao ator hollywoodiano.

A explosão do Porto destruiu o Le Chef, inaugurado há quase 60 anos e que havia sido um dos restaurantes protagonistas de um documentário do falecido e estrelado chef Anthony Bourdain. Crowe fez então uma generosa doação para a reconstrução da casa, que hoje usa essa história, tão saborosa quanto a comida, como marketing.

Nas poucas mesas, libaneses que parecem ter frequentado o restaurante desde o seu primeiro dia se misturam a turistas jovens e descolados de todos os cantos do planeta. Em comum entre todos os frequentadores, o prazer de apreciar a boa e farta comida, com preços bastante razoáveis e com uma peculiaridade rara para quem viaja no Líbano sem companhia: pratos feitos para servir somente uma pessoa.

Da Gouraud é um prazer especial caminhar até o Downtown e avistar ao longe os minaretes da mesquita Mohammad Al Amin ou, optando pela direção contrária, chegar a Mar Michael, onde é possível ir ao cinema Metrópolis, experimentar uma cerveja gelada em um dos muitos bares ou fazer compras nos mercados locais também recuperados da explosão que vitimou especialmente essa área da cidade.

A sensação ao caminhar pelas ruas é de esperança, conforto, beleza, reconhecimento, alegria. No entanto, ali também é impossível se livrar dos tristes contrastes: refugiados, sobretudo crianças, mendigam comida e água, com uma insistência que também não deixa de ser resiliente. As dores do Líbano são sempre recorrentes e explícitas.

Hotel Saint Georges – resistência, manouche e Beirut (a cerveja)

O charme moderninho das hospedagens da Gouraud é atraente, mas jamais vai superar, me desculpem, os clássicos de Beirute. Para extrema sorte de alguns visitantes desse verão no Líbano, o Saint Georges, glamouroso hotel dos anos 60, destruído na batalha dos hotéis da Guerra Civil e inimigo dos financistas do Solidere, inaugurou um anexo com vista para a sua linda carcaça.

O novo hotel ostenta a placa Stop Solidere bem em frente ao monumento que homenageia o ex-primeiro-ministro Rafic Hariri, assassinado a poucos metros do hotel. Quem teve a sorte de aproveitar as promoções de inauguração teve acesso, por um preço menor do que dos hotéis medianos do Nordeste brasileiro, ao conforto dos quartos com vista para o Mediterrâneo e ao próprio Saint Georges e toda a área das piscinas do hotel, um grande espaço solar ao lado da Zaitunay Bay.

Na Corniche, ao contrário do que ocorria nos dois anos seguintes à explosão do Porto, os novos ares de Beirute estavam mais límpidos. Antes, havia um breu noturno na área, que tornava o ambiente mais denso, embora sempre lindo, mesmo durante o dia. Nesse final de verão, início de outono, era como se, além das luzes elétricas, um brilho imaginário também tivesse acendido.

Pela primeira vez reparei na mesquita do lado esquerdo, bem depois da curva do Saint Georges, com as belas entonações do muezim. Lenços enfeitavam as cabeças das mulheres que passeavam em família até bem tarde da noite, misturadas a outras mulheres sem lenços e com pouca roupa. Todas elas, independente do figurino, donas daquele território, misturadas às crianças que vendem rosas perfumadas exalando sofrimentos.

Mas, mesmo no encantamento, o Líbano nunca é retilíneo. Da janela do hotel, foi possível também assistir ao movimento de grupos de motociclistas que se dirigiam para a Raouche, ostentando bandeiras do Hezbollah e usando as buzinas como um grito coletivo. Poucas horas depois, ocorreria a manifestação com a projeção das fotos nas pedras, que havia sido proibida pelo governo. O momento parecia grave, portador de desdobramentos imprevisíveis. No dia seguinte, tudo havia se reduzido às fotos nos jornais e redes sociais. Beirute, como se nada houvesse acontecido, amanhecia.

Hamra – história rústica

Do Saint Georges para Hamra é um pulo, ou melhor, uma caminhada cheia de atrações no caminho, incluindo lojas luxuosas e populares, floriculturas, centros médicos, a Universidade Americana, pequenos prédios de arquitetura tradicional libanesa e muitos carros que, na falta de transporte público, se aglomeram em um trânsito enlouquecedor por toda Beirute.

Só convivi com um trânsito melhor na cidade em 2022, quando a crise do abastecimento de combustível provocava filas gigantes nos postos de gasolina e forçava os carros a permanecerem em casa. Agora, cada membro de muitas famílias tem um automóvel que sai para as ruas numa batalha diária da qual a principal vítima é o pedestre, que não encontra fácil um caminho seguro para uma simples travessia de rua.

O difícil, porém, não torna a tarefa impossível e, pelo contrário, é sempre encantador caminhar em Beirute. Nas proximidades da rua Hamra, uma livraria atrai com uma placa convidativa. Dentro, livros escritos em árabe empilhados em cada canto, subindo pelas estantes, por vezes ostentando fotos que prescindem das palavras, como a de um Arafat ainda jovem exibindo o sorriso provocado pela ilusão da vitória numa luta que ainda não declarou vencedores.

O livreiro conta que já viajou algumas vezes ao interior de São Paulo, abre o livro escrito em francês que carrego e pergunta que língua afinal é aquela, o que é bastante surpreendente em Beirute. Convida a sentar, em inglês, sempre educado. Agradeço, quero continuar o passeio, ele anota o meu nome no livro de visitantes, onde vários países do mundo estão listados até o número que passo a ocupar na lista: 156.

O francês, aliás, parece enfrentar um período em baixa na cidade. Conversei com jovens que já consideram o inglês o segundo idioma e, pelo menos em Beirute, é cada vez mais fácil se comunicar nessa língua. Mais de um interlocutor me disse, como o livreiro, que só lê em árabe ou inglês.

Procuro a tradicional livraria Antoine, encontro, me decepciono porque é pequena e tem poucos livros, mesmo assim compro um, ando mais até o hotel Commodore – que carrega tantas memórias dos jornalistas que cobriram os combates da Guerra Civil antes de migrarem, amedrontados, para a cobertura a partir do Chipre.

As lojas de perfumes, as malas da China, as barbearias, os prédios decadentes com varandas grandes e cortinas surradas, os cafés onde ainda paira a mítica presença de Ziad Rahbani. Hamra parece sempre à espera de dias melhores enquanto espreita o andamento das horas sem brigar com o tempo. Como uma velha sem maquiagem e que despreza o etarismo, exibe marcas e cicatrizes sem constrangimentos. A resiliência que se exibe no sol da Corniche cresce e floresce, antes, nas suas esquinas.

Downtown – reconstrução permanente

A recente reabertura do Beirut Souks, fechado por mais de quatro anos depois da explosão do Porto, também é um ingrediente a mais nesse caldo de esperança e festa que tomou conta da cidade. Embora a reabertura oficial tenha acontecido neste outono, várias lojas já estavam funcionando a pleno vapor no verão.

Os dias quentes, de céu muito azul, realçavam o amarelo do relógio otomano, dos prédios restaurados após a guerra civil, dos minaretes e das torres das igrejas, elas mesmas testemunhas das glórias e tragédias que constituem o espírito dessa cidade.

As muitas lojas de luxo espalhadas pelas ruas são uma prova material de que os muito ricos sempre têm a ganhar com as derrotas ou vitórias do Líbano, na saúde e na doença. Ali perto, as muitas luzes acesas nos quartos do hotel Phoenicia garantem o glamour desse revival da cidade mais bonita e interessante do Oriente Médio, mesmo que a carcaça abandonada e cravejada de balas do Holiday Inn, bem ao lado, seja um antídoto para o esquecimento.

Norte e Sul, Bsharri e Tyre – tão longe, tão perto

A geografia também é testemunha e cúmplice dos contrastes libaneses. Enquanto as montanhas do Norte permanecem imersas numa espécie de paz encantada, as cidades do Sul ainda não conseguiram reencontrar o caminho da normalidade.

Bem perto de Beirute, no caminho para a terra natal de Khalil Gibran, dos Cedros de Deus e das maçãs, a charmosa Batroun é como uma síntese do verão libanês, apinhada de gente no fim de semana solar, com lojas e restaurantes lotados. Seguindo em frente, nas curvas sinuosas rumo a Bsharri, o Líbano parece tão plácido quanto as igrejas de pedra que escondem tesouros espirituais e históricos no Vale do Kadisha. Mesmo sem neve, as montanhas da região remetem a um país sonhado, idílico.

A estrada para o Sul, rumo a Tyre, porém, ainda exibe feridas abertas e que os ataques persistentes do inimigo impedem que cicatrizem. As bandeiras do Hezbollah e as fotos dos seus líderes se exibiam, pelo menos no dia da minha visita – por coincidência, o mesmo da manifestação na Raouche -, por toda a estrada a partir de Sidon. 

Enquanto Beirute fervilhava de animação em um dia solar de setembro, a belíssima Tyre, cidade fenícia mãe de Cartago, com belíssimas praias mediterrâneas, sítios históricos importantes e hotéis de charme, estava vazia.

Não havia nenhum outro turista além de mim quando, pela primeira vez, visitei Tyre. A sombra da guerra ainda é visível em prédios transformados em ruínas pelos bombardeios recentes, ou pelo som de bombas explodindo nos vilarejos vizinhos, como o que ouvi no Hipódromo e provocou, simultaneamente, sustos e risadas em um grupo de crianças estudantes que eram, além de mim, os únicos visitantes no sítio.

É fato que os moradores retomaram a vida o mais perto possível do normal e estavam nos cafés e nas ruas, mas os banhistas que lotavam o verão nas melhores praias do Líbano estão buscando outros caminhos. As hospedagens estão vazias.

A conjuntura dos ataques incessantes na região não impede, entretanto, a visita ao Sul. O acesso ao Castelo das Cruzadas e ao magnífico souk de Sidon, por exemplo, permanece fácil e agradável. A apenas uma hora de Beirute, é um passeio imperdível em um Líbano autêntico, cheio de delícias culinárias, artesanatos, fábrica de sabão e uma gente boa e receptiva.

Alguns poucos quilômetros mais adiante, Tyre se tornou mais desafiante por estar próxima da fronteira de Israel e ser alvo, por vezes, dos conflitos. Mas os muitos estudantes que lotam os seus monumentos em aulas de História ao ar livre não apenas encorajam as visitas, como também são, com sua presença, mais uma prova, talvez a mais importante, da resiliência do Líbano. Caminhando sobre as ruínas do passado, esses jovens incorporam o futuro.

 
 
Fotos: Jaqueline Farid
jornalista e escritora, especializada em economia e política, consultora de comunicação e de gestão de crise. É colaboradora da Academia Líbano-Brasileira.

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