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Gastronomia Libanesa – Somos mais do que esfihas, quibes e pão árabe!

Trazida pelos imigrantes em meados do século XIX, a culinária libanesa integrou-se à brasileira graças à presença da comunidade libanesa nas mais distintas regiões do país. Os sírios e libaneses que aqui chegaram no final do século XIX e início do século XX tinham como propósito trabalhar, morar, formar família e criar raízes neste novo mundo. Como a dificuldade com a língua era grande, suas atividades iniciais foram, em grande parte, o mascateio. Assim, atravessaram o Brasil de ponta a ponta, conhecendo o país e levando novidades — mercadorias e produtos trazidos diretamente do Líbano e da Síria, especialmente especiarias que encantavam os que aqui viviam, além de peças de roupa.

Rapidamente, a comida libanesa chegou à mesa dos brasileiros: uma explosão de sabores a tomar conta dos sentidos — não apenas da visão, mas também do paladar e do olfato. Havia de tudo: noz-moscada, cominho, canela, pimenta-síria, zaatar, açafrão, coalhada seca, tabule, hommus, quibe, esfiha, lentilha, favas, grão-de-bico, trigo, gergelim, hortelã, azeite, azeitona…

Meu avô chegou ao Brasil no final do século XIX, retornou ao Líbano e se preparou para voltar definitivamente, desta vez trazendo toda a sua família. Fez quinze cartas de chamada — era preciso responsabilizar-se financeiramente por essa empreitada — e com ele vieram seus pais, sogros, esposa e respectivos irmãos.

Estabeleceu-se na cidade de Nova Friburgo, no Sul Fluminense, e, ao primeiro convite feito aos vizinhos para um almoço, a diferença cultural gastronômica foi imediatamente notada. A mesa era farta, com tudo aquilo a que os libaneses estavam acostumados em sua terra natal. Dois pratos, em especial, causaram grande surpresa: o zaatar e o quibe cru. Os visitantes se levantaram e espalharam pela cidade que eram “comedores de terra” (zaatar) e “canibais” (quibe cru). Com o tempo, entretanto, tudo se resolveu. A família era grande, e os vizinhos passaram a compreender a dinâmica libanesa.

A família Bulus cresceu, e o sobrenome de uma das irmãs do meu avô passou a ser Jasbik. Naquelas redondezas, eram todos da mesma origem.

Assim a gastronomia libanesa se expandiu e se misturou à brasileira. Como no Brasil não havia alguns ingredientes, surgiram adaptações criativas: o charutinho de folha de uva, lá chamado merche, passou a ser feito com folha de couve; o quibe ganhou versões com mandioca; a carne de boi substituiu a de cordeiro, tradicional no Líbano. O mezze transformou-se na famosa “mesa farta”, com todos os pratos servidos ao mesmo tempo.

Os doces libaneses também passaram a ser muito apreciados. Sempre artesanais e perfumados, levavam ingredientes raros por aqui, como semolina, água de rosas, água de flor de laranjeira, mástique, entre outros, que precisaram ser adaptados e produzidos localmente. Minha avó e minha tia madrinha faziam a água de flor de laranjeira com as flores e folhas dos laranjais que tínhamos no quintal.

Tudo tinha um sabor e um aroma especiais: o arroz de peixe, com cheirinho de cominho; o chishbarak, uma deliciosa sopa de iogurte com bolinhas de massa recheadas de carne, hortelã e alho; miolo de cordeiro frito; cordeiro assado com alecrim; quibe de abóbora recheado com grão-de-bico; slebe, a goma libanesa de misk; namura, um bolo de semolina com amêndoas e calda de açúcar. Era uma espécie de banquete diário!

Hoje, com a globalização, é comum encontrar receitas publicadas na internet e misturas que eu nunca vi.

Mas feliz é quem conviveu com avós, tias e pais. A memória afetiva estará presente até meus últimos segundos de vida.

Sahtein, que significa “saúde duas vezes”, é a expressão que usamos à mesa!

Para terminar, lembro-me do grande poeta Gibran Khalil Gibran, que usa a comida para definir a resiliência do povo libanês:

“Somos um povo que come seus corações como comida e bebe suas lágrimas como vinho.”

Fica o meu convite para esta festa gastronômica que toca os olhos e a alma.

Alice Bulus é bacharel em Letras, Português-Árabe, pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), com forte envolvimento na preservação e promoção da cultura libanesa. É membro colaboradora da Academia Líbano-Brasileira.

8 Comments

  1. Parabéns , Alice Bulus , pela linda homenagem aos seus antepassados e por compartilhar suas memórias afetivas !

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    • Muito obrigada minha amiga do❤️

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  2. Belíssimo texto. Cheguei sentir o cheiro da comida da minha falecida mãe das saudosas avós. Obrigado por nos presentear esse delicioso texto.

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    • Muito obrigada

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  3. Belíssimo texto. Cheguei sentir o cheiro da comida da minha falecida mãe das saudosas avós. Obrigado por nos presentear esse delicioso texto.

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  4. Muito obrigada

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  5. muito legal! Gostei do conteúdo

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    • Muito obrigada

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