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JÁ NÃO SABEMOS DO BARCO, MAS SEMPRE HÁ UM NÁUFRAGO

Já não sabemos do barco, mas sempre há um náufrago.

Essa imagem, evocada no diálogo intelectual entre Milton Hatoum e Hisham Matar, transcende a literatura para se tornar uma metáfora da história contemporânea. O barco representa as estruturas de poder; o náufrago, o ser humano lançado à deriva pelas forças da política, da violência e da economia.

Ao longo do século XX, as ditaduras recorreram sistematicamente ao exílio como instrumento de sobrevivência. Escritores, professores, jornalistas e artistas foram expulsos porque a palavra livre possui uma capacidade singular de corroer os alicerces do autoritarismo. O intelectual, nesse contexto, não era apenas um opositor, mas a possibilidade de outro futuro.

Entretanto, o exílio não pertence exclusivamente aos regimes declaradamente ditatoriais. Muitas democracias apenas preservam a forma institucional enquanto convivem com desigualdades extremas, corrupção estrutural e exclusão social. Nessas circunstâncias, milhões de pessoas são empurradas para um exílio silencioso: abandonam sua terra não por escolha, mas porque lhes foram negadas as condições mínimas para viver com dignidade. Fogem da fome, da violência, da ausência de perspectivas e da degradação das instituições.

O neoliberalismo, quando reduz todas as relações humanas à lógica do mercado e subordina a política aos interesses do capital financeiro, pode transformar-se em um mar revolto. Nesse oceano, comunidades inteiras tornam-se descartáveis, e o deslocamento deixa de ser um acidente para converter-se em uma condição permanente da modernidade.

Por isso, talvez já não importe identificar o barco. Os regimes mudam de nome, as ideologias se sucedem e os sistemas se reinventam. O que permanece é o náufrago: o exilado, o refugiado, o perseguido, aquele que perdeu o lugar no mundo. É nele que a história revela sua dimensão ética, pois uma civilização não deve ser julgada apenas pela solidez de suas embarcações, mas pela maneira como acolhe aqueles que delas foram lançados ao mar.

Texto inspirado no diálogo intelectual entre os escritores Milton Hatoum e Hisham Matar, que ocorrerá na Flip 2026, no sábado, 25 de julho de 2026.

 

advogado e empresário; é presidente da Câmara de Comércio Líbano-Brasileira do Rio Grande do Sul e membro da Academia Líbano-Brasileira, cadeira N° 05.

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