“História, nossas histórias, dias de luta, dias de glória.” (Charlie Brown Jr.)
A frase “kan ya makan” (كان يا مكان), frequentemente traduzida como “Era uma vez”, é apenas a entrada para um universo de narrativas que flertam com o real e o imaginário. Uma explicação mais rica para sua origem remonta à expressão árabe “kana hunaka rajul, wa rubama lam yakun” (كان هناك رجل ، وربما لم يكن), que significa “havia um homem, e talvez não havia”. A dualidade da frase reflete a essência da contação de histórias: uma dança entre a realidade e a fantasia.
E o resto… bem, o resto são narrativas.
Nos tempos antigos, o hakawati (حكواتي) era uma figura central na vida das comunidades árabes, funcionando como uma das principais fontes de entretenimento e transmissão de valores culturais. O termo vem da palavra árabe hekaya (حكاية), que significa história. Sua popularidade era especialmente notável durante o Ramadã, quando, após um dia inteiro de jejum, as noites se tornavam longas e receptivas para histórias que mantinham as pessoas acordadas e conectadas.
Desde o início do século XIX, o hakawati tornou-se uma profissão estabelecida no mundo árabe, transformando-se em parte do folclore local. Com um fez (tarbouch, طربوش) na cabeça e um tradicional qambaz (قمباز) – traje usado em regiões da Síria, Líbano, Jordânia e Palestina –, o narrador percorria ruas, cafés e aldeias. Munido de um bastão de madeira e carregando livros de contos, ele reunia o público ao seu redor para narrar histórias de heroísmo, ação e romance. Suas histórias, frequentemente extraídas de obras clássicas como Mil e Uma Noites (ألف ليلة وليلة), os épicos de Antar (عنتر), e as fábulas de Kalīla wa-Dimna (كليلة ودمنة), eram entremeadas com metáforas, rimas e exageros que mantinham a audiência cativada.
Mais do que um simples contador, o hakawati era um intérprete. Ele modulava sua voz, ajustava o tom e o sotaque, e personificava os inúmeros personagens de suas histórias. A habilidade de terminar os relatos em um momento de suspense garantia a fidelidade do público, que voltava noite após noite para ouvir a continuação.
No entanto, a tradição começou a se esvair com o passar dos anos, especialmente devido à modernização e às mudanças nos hábitos culturais. Hoje, o hakawati é mais uma lembrança de um passado glorioso do que uma prática comum. Apesar disso, esforços para resgatar essa herança cultural continuam no Líbano e em outros países árabes. Um exemplo notável é o Festival do Contador de Histórias, organizado por Kassem Istanbouli, que visa revitalizar a tradição e reintroduzi-la às novas gerações.
O hakawati não era apenas um entretenimento; ele representava a alma das comunidades, transmitindo valores, história e identidade. Em um mundo que valoriza cada vez mais a tecnologia, sua arte nos relembra o poder das narrativas e a conexão humana que elas promovem.
Como disse Clarice Lispector: “Uma história é feita de muitas histórias. E nem todas posso contar…” Assim, cabe a nós preservar as que podemos. Afinal, o mundo ainda precisa de hakawatis para nos lembrar que, entre a realidade e a fantasia, há um espaço onde tudo é possível.
© Revista Libanus
fotos: pinterest






5 Comments
Parabéns por sua excelente revista. Leio sempre e me encanto com os textos e informações. Continuem sempre !
Obrigado por mos acompanhar, Ardisson
Que lindo texto! Como sou uma contadora de histórias (roterista) e descendente de libaneses, fico emocionada. Obrigada.
Obrigado a você, Mariana, pela leitura. É ótimo saber de sua profissão (roteirista). Parabéns.
Olá Mariana. Que legal saber que você é roteirista (contador a de histórias). Obrigado por nos acompanhar e pela sua leitura.