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A vitória de Fernanda Torres no Globo de Ouro e os desafios do cinema libanês

O Brasil acordou nesta segunda-feira (6) com a notícia de uma conquista histórica. Fernanda Torres fez história ao se tornar a primeira atriz brasileira a ganhar o prestigiado Globo de Ouro, um dos prêmios mais importantes do cinema mundial. A cerimônia, realizada em Hollywood, reconheceu de forma merecida a atuação brilhante de Fernanda no aclamado filme Ainda Estou Aqui, que tocou o público com sua profunda emotividade e temática relevante. Este marco não apenas celebra o talento excepcional de Fernanda, mas também coloca o Brasil em destaque no cenário cinematográfico internacional, evidenciando a crescente contribuição do país para o cinema global.

Falando em cinema, é impossível não refletir sobre a evolução e a diversidade da produção cinematográfica ao redor do mundo. Cada indústria tem suas particularidades e desafios, e é fascinante perceber como diferentes culturas conseguem, por meio da arte, criar um impacto duradouro. O cinema libanês, por exemplo, embora não tenha alcançado a magnitude histórica do cinema egípcio, continua a ser um pilar essencial da cultura árabe e tem conquistado um público crescente em todo o mundo. Desde os seus primeiros filmes nos anos 1930, como As Aventuras de Elias Mabrouk e As Aventuras de Abou Abed, dirigidos por Giordano Pudutti, até o icônico In the Ruins of Baalbeck (1936), o cinema libanês se fez presente com um estilo próprio. Este filme, além de ser o primeiro a utilizar som, também marcou a história por ser o primeiro a incorporar o dialeto árabe libanês, o que conferiu ao cinema libanês uma característica única de autenticidade e identidade cultural.

A independência do Líbano em 1943 se tornou um ponto de inflexão para a criatividade do cinema libanês. Foi nessa época que cineastas como Georges Nasser (1927-2019) começaram a se destacar, com seu aclamado filme Ila Ayn (1957), que foi selecionado para o Festival de Cannes, sinalizando a importância crescente do cinema libanês no cenário internacional. Durante as décadas de 60 e 70, os musicais dos irmãos Rahbani, estrelados pela diva Feiruz, passaram a ser uma expressão cultural significativa. Filmes como Biya el-Khawatim (1973), de Youssef Chahine, e Safar Barlek (1966), de Henri Barakat, que retratavam aspectos da ocupação otomana e da vida nas aldeias libanesas, tornaram-se peças-chave na construção da identidade nacional libanesa no cinema.

A guerra civil libanesa, que devastou o país entre as décadas de 70 e 90, tornou-se o tema predominante no cinema libanês, sendo explorada por cineastas como Jocelyne Saab (1948-2019), Maroun Bagdadi (1950- 1993) e Borhan Alawieh (1941-2021). Saab, pioneira do novo cinema libanês nos anos 70, retratou intensamente a cidade de Beirute e os efeitos da guerra, como em “Era uma vez Beirute” (1994), um documentário que mergulha na memória da cidade destruída. Já Bagdadi, parte da geração que viveu a “decepção e os sonhos”, usou sua câmara para capturar a transição de Beirute, de uma cidade cheia de promessas para um centro de caos e destruição, como visto em seus filmes “Beirut al-Jadida” e “Outrem”.

Por sua vez, Alawieh, com seu olhar político e social, também documentou a guerra civil libanesa e suas consequências em filmes como “Kafr Kassem” (1975) e “Beirut Encounter” (1981), mostrando o impacto traumático da guerra nas infraestruturas do país e na memória coletiva. Outros cineastas, como Randa Chahal Sabbagh (1953-2008), Joana Hadjithomas e Khalil Joreige, buscaram fugir do tema da guerra, mas ainda o abordaram ao tratar de questões sociais e políticas profundas, como em “Cerf-Volant” (2003) e “Autour de la Maison Rose” (1999).

Esses cineastas contribuíram para o legado do cinema libanês, capturando as tensões, as transformações, abordando temas polêmicos e muitas vezes controversos com um olhar investigativo, usando diversas técnicas cinematográficas para explorar as complexas histórias do povo libanês, especialmente das mulheres e os traumas de uma geração marcada pela guerra e pelos conflitos sociais e políticos, com um olhar atento à reconstrução do país e à memória coletiva do Líbano.

Nos últimos anos, uma nova geração de cineastas libaneses tem dado uma nova roupagem ao cinema do país, com um foco maior na busca de identidade e no processo de cura pós-guerra. Diretores como Nadine Labaki, Philippe Aractingi, Ziad Doueiri, Danielle Arbid, Hisham Bizri, Amin Dora, Elie Fahed, Daizy Gedeon, Joana Hadjithomas, Khalil Joreige, Darine Hamze, Farah Al-Hashem, Bahij Hojeij, Michel Kammoun, Yasmine Khlat, Carmen Labaki, Mazen Khaled, Omar Naim, Elia Petridis, Tareck Raffoul, Ghassan Salhab, Mira Shaib, Heiny Srour, Nadim Tabet, Sylvio Tabet, Eli Jean Tahchi, Ziad Touma, Maryanne Zéhil, Oualid Mouaness, entre outros,  têm explorado diferentes facetas da experiência libanesa, criando narrativas que ressoam além das fronteiras do Líbano.

Nadine Labaki, por exemplo, tem se destacado internacionalmente com seu filme Capharnaüm (2018), que foi indicado ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro, além de sua obra anterior, E Agora, Aonde Vamos? (2011), que também abordava questões de resistência e solidariedade feminina em tempos de crise. Seu trabalho tem sido fundamental na reinvenção do cinema libanês, com foco na realidade social e emocional do país, longe do pesadelo da guerra.

Por outro lado, Ziad Doueiri, com seu filme O Insulto (2017), também foi selecionado para o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro, explorando as tensões intercomunitárias no Líbano pós-guerra, um tema delicado que ainda permeia as relações sociais no país. A chegada desses cineastas e de suas novas narrativas trouxe uma mudança importante ao cinema libanês, criando uma conexão mais profunda com o público global e com a própria população libanesa, que começa a se reconstruir de uma maneira emocional e socialmente complexa.

No entanto, o cinema libanês ainda enfrenta desafios substanciais, principalmente quando se trata de distribuição e financiamento. A falta de uma infraestrutura cinematográfica robusta e a escassez de recursos para produção e distribuição tornam-se obstáculos consideráveis para os cineastas libaneses. Embora a coprodução com países de língua francesa tenha sido uma saída estratégica para muitos, a indústria ainda carece de uma base financeira sólida que possa garantir uma maior presença internacional. O panorama do cinema libanês, embora recheado de produções de alta qualidade e histórias poderosas, precisa de maior visibilidade e apoio financeiro para competir mais efetivamente no cenário cinematográfico mundial e alcançar uma distribuição mais abrangente.

Paralelo:

A conquista de Fernanda Torres no Globo de Ouro e o caminho do cinema libanês traçam um paralelo interessante. Ambos representam a busca incessante por reconhecimento e visibilidade no cenário mundial. A vitória de Fernanda coloca o Brasil em um novo patamar no cinema global, destacando não apenas o talento da atriz, mas também refletindo um contexto cultural em crescimento e cada vez mais respeitado. Da mesma forma, o cinema libanês, com suas ricas histórias e a consagração de cineastas como Nadine Labaki e Ziad Doueiri, busca ser mais do que uma expressão regional — almeja uma inserção definitiva no panorama mundial, superando suas dificuldades históricas e financeiras. Ambos os casos ilustram a capacidade da arte cinematográfica de superar obstáculos e romper fronteiras, levando o nome de suas respectivas nações para um público global ávido por histórias autênticas e emocionantes.

© Revista Libanus

Fotos: Reuters (Mario Anzuoni) – pinterest /Isber Melhem / imdb/ media- pinterest/Filme “Petites guerres”- (1981)/ Camilla Morandi/Shutterstock
Georges Nasser
Jocelyne Saab
Randa Chahal Sabbagh
Maroun Bagdadi
Nadine Labaki, Ziad Doueiri
Equipe da Revista e do Blog

2 Comments

  1. Gostei do artigo sobre os caminhos do cinema libanês e do cinema brasileiro.,
    Me senti privilégiada ao ler estes artigo onde nele foram mencionados todos os filmes que eu já assisti.
    Congratulações para Fernanda Torres por ganhar, merecidamente, o Troféu Globo de ouro com a esperança que o cinema libanês consiga conquistar os maiores prêmios internacionalmente considerados. Obrigada.

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    • Obrigado, Marie, por prestigiar a leitura de nossa revista.

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