Hoje, 26/7, o Líbano perde
uma de suas vozes mais brilhantes e irreverentes: Ziad Rahbani (1956-2025),
compositor, dramaturgo, ator e intelectual. Rabbani deixa um vazio imenso na cena cultural árabe.
Filho da lendária cantora Fairuz e do grande compositor Assi Rahban, Ziad não
viveu à sombra dos pais — pelo contrário, tornou-se um dos artistas mais cults
e influentes do Líbano, com uma obra que misturava crítica social, humor ácido
e uma profunda conexão com as contradições de seu país.
O Gênio do Teatro Político e do Absurdo
Ziad Rahbani era um mestre
do teatro libanês, com peças que capturavam o espírito de uma Beirute dividida
entre a guerra e a resistência, entre a tradição e a modernidade. Suas obras,
como Film Ameriki Tawil (1979), “Bennesbe La Boukra Shou?” (1978) e
“Shi Fashil” (1983), eram sátiras afiadas sobre a política libanesa, a
hipocrisia social e a ocupação israelense. Seus diálogos eram tão cultuados que
viraram parte do imaginário popular — frases como temos que tentar não ficar
com raiva hoje” ecoam no país dos
Cedros.
Seu teatro não era apenas entretenimento: era um manifesto. Ele usava o humor negro e o absurdo para expor a loucura de uma sociedade em colapso, tornando-se a voz de uma geração que via o Líbano se despedaçar e se reinventar.
O Cinema e a Música: Crítica com Elegância
No cinema, Ziad Rahbani deixou sua marca como compositor e ator. Suas trilhas sonoras para filmes como “The Belt of Fire”(2003) e *
“Beirut, the
Encounter” (1981) misturavam jazz, música tradicional árabe e influências
ocidentais, refletindo sua visão de um Líbano plural. Criava personagens complexos, muitas vezes
carregados de ironia e melancolia.
E, claro, sua música era
outra forma de resistência. Canções como _Ana Mosh Kafer” e “Bala
Wala Shi” eram hinos não-oficiais de uma juventude que se recusava a se
curvar ao sectarismo e à corrupção.
O público brasileiro pôde
ver Ziad Rahbani no cinema, no filme “Sob o Céu do Líbano” (1999),de
Jocelynsle Saab.
Um dos aspectos mais
notáveis do filme foi a sua
participação que além de atuar ,
contribuiu para a trilha sonora do filme, imprimindo sua marca única.
A música de Rahbani em
“Sob o Céu do Líbano” não apenas enriquece a narrativa, mas também
reflete o tom melancólico e poético da história. No filme, sua trilha ajuda a
construir a atmosfera de um Líbano dilacerado pela guerra, mas ainda pulsante
de vida e arte.
Sua participação no filme
reforça a conexão entre arte e resistência, um tema central na obra de Jocelyne
Saab.
A trilha de Ziad Rahbani permanece como um
testemunho de sua genialidade e da capacidade da arte de transcender
fronteiras, mesmo em tempos de guerra.
O Ícone Cult do Líbano
Ziad Rahbani não era apenas um artista — era um símbolo de resistência intelectual. Enquanto o Líbano mergulhava em guerras e crises, ele permaneceu como uma figura quase mítica: um intelectual boêmio, fumante inveterado, dono de um humor cortante e uma lucidez implacável. Suas aparições públicas eram raras, mas cada entrevista ou declaração virava evento.
Hoje, o Líbano chora não só um artista, mas um filósofo popular que nunca deixou de questionar seu país, mesmo amando-o profundamente. Sua morte, em um momento de profunda crise econômica e política, parece mais uma ironia trágica — como se o próprio Rahbani tivesse escrito seu último ato.
Rest in power, Ziad. O palco do Líbano nunca mais será o mesmo.




1 Comment
Belíssimo texto, dra. Muna! Sem dúvida, a partida de Ziad Rahbani é uma enorme perda para a intelectualidade libanesa e árabe.
Foi tocante ver a cena da dama Fairuz no funeral do filho.