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Entrevista: Charif Majdalani- o prestigiado escritor libanês e o poder da narrativa como identidade

A narrativa, a arte de contar histórias, encontra uma profunda ressonância na obra do reconhecido escritor libanês Charif Majdalani. Como fios de prata que iluminam palavra após palavra, a memória, a história e a identidade se entrelaçam em seus textos. Por meio de suas páginas, o autor explora esses temas e consegue transcender as fronteiras de seu país até alcançar uma dimensão universal.

Considerado uma das figuras mais destacadas da literatura francesa e libanesa contemporânea, Majdalani foi indicado ao Prêmio Goncourt — a distinção literária mais importante da França e de influência mundial — e recebeu inúmeros prêmios, entre eles: Tropiques; François Mauriac, da Academia Francesa; Jean Giono; Fémina, por Beirut 2020, Journal d’un effondrement (traduzido como Beirute 2020, diário de um colapso nos Estados Unidos e Beirute 2020, a queda de uma civilização na Inglaterra); e o Prêmio França-Líbano. Doutor em Literatura pela Universidade de Provença (França), atualmente leciona em seu Líbano natal, combinando sua atividade acadêmica com um prolífico trabalho jornalístico e literário.

Como quem caminha pelas ruas de Beirute e respira a brisa marinha, esta entrevista fluiu naturalmente, buscando fazer ressoar sua voz na Argentina, onde a vasta diáspora libanesa continua explorando sua própria identidade.

A seguir, o diálogo com um autor essencial da literatura libanesa contemporânea: Charif Majdalani.

– Como você descobriu sua paixão pela escrita e quando começou a escrever romances?

A escrita sempre tem sua fonte na leitura. A escrita é motivada pela leitura. Se alguém não lê, nunca sente o impulso de escrever. Sempre li muito: minha mãe me incentivou imensamente, e havia muitos livros em casa; o desejo de escrever surgiu em mim muito cedo. Escrevi muitos textos curtos quando criança e, depois, como adolescente, influenciado pelo que lia. Como adulto, escrevi bastante, mas nenhum desses textos me convenceu; por isso, nunca enviei nada aos editores, até que comecei a escrever Histoire de la Grande Maison (traduzido como História da Grande Casa), meu primeiro romance.

– Você gostava de ler algum gênero literário em particular na infância?

Quando criança e, posteriormente, como adolescente, li romances com fundo histórico, de autores hoje praticamente esquecidos (o romance que despertou minha paixão pela história de Napoleão intitulava-se Un Conscrit de 1813, de Erckmann e Chatrian; pertencia à coleção da minha mãe e agora é impossível de encontrar), ou livros de história que a narravam como uma epopeia ou como uma série de aventuras políticas e militares. Também li Júlio Verne e Robert Louis Stevenson. Era um grande fã de histórias em quadrinhos, sobretudo daquelas publicadas na revista Tintim.

– Quais temas mais despertam o seu interesse ao escrever seus romances?

Escrevi vários romances baseados em histórias familiares, casas e bairros de Beirute, com o objetivo de construir uma espécie de afresco que retrate as transformações e metamorfoses do Líbano e de Beirute sob perspectivas sociais, econômicas, ecológicas e políticas. De maneira mais ampla, meus livros exploram questões relacionadas à passagem do tempo, sua influência sobre indivíduos e sociedades e os principais marcos de mudança histórica — quando uma sociedade, um país ou uma civilização inteira se transforma, lenta ou abruptamente — e como as pessoas lidam com essas mudanças: aceitando-as, apoiando-as ou resistindo a elas, mesmo que isso signifique serem arrastadas por elas.

– O senhor fez seu doutorado em Literatura na França e vive no Líbano. Suas raízes libanesas e vivências na França influenciam o processo de escrita de um romance?

Não gosto particularmente da palavra “raízes”, pois ela sugere um apego forte, antigo e distante à mesma terra e ao mesmo território. Certamente, sou libanês; minha família vive em Beirute há muito tempo, e escrevi extensivamente sobre esta cidade e sobre minha família, em particular sobre meus avós. No entanto, o Líbano é um país marcado pela mistura e pelo movimento. Muitas pessoas o deixaram por meio da migração para o Egito, Europa e América, enquanto outras se refugiaram ali. Dentro da minha família, meu avô materno viveu no Sudão; minha mãe nasceu em Cartum; meu pai viveu no Egito; e tenho tios e primos no Brasil e na Argentina. Isso é o que me interessa e o que corresponde ao rosto do mundo atual: misturas, movimentos, deslocamentos e hibridismo intercultural. Escrevi um livro intitulado Mille Origines (Mil Origens) — no qual relato a diversidade de origens da população libanesa e as narrativas de sua dispersão. Quanto à importância da minha estada na França, foi muito significativa, pois meus estudos lá me permitiram descobrir de perto a literatura contemporânea e me comparar com as formas mais modernas de escrita de romances.

– É uma tarefa difícil imaginar e caracterizar personagens e cenários? A história desempenha um papel importante em suas narrativas?

A realidade oferece uma riqueza de protótipos para personagens de ficção. Basta olhar ao redor e ouvir as histórias que as pessoas contam para obter ideias. No entanto, inspiro-me principalmente em minhas próprias experiências ou na vida daqueles que me cercam. Trabalho muito com material vivo, que nutro com anedotas e detalhes da minha imaginação. Mas até mesmo a imaginação se alimenta de histórias que ouço ou vejo.

– Você é um profissional multifacetado: professor universitário, consultor de mídia e colunista. Como equilibra esses diferentes papéis? Essas experiências diversas enriquecem o material para seus romances?

Ensinar e escrever colunas literárias não alimentam diretamente a produção literária. No entanto, durante três anos escrevi uma coluna gratuita para o jornal francês La Croix. Todas as semanas, tinha liberdade para escrever sobre o que quisesse. Escrevi muito sobre o cotidiano no Líbano e em outros lugares; sobre viagens, notícias e diversas anedotas. Tudo isso, sem dúvida, acabará em um livro. Compilaremos essas colunas em uma coletânea, mas esses textos curtos também inspiraram um livro intitulado Mille Origines (Mil Origens) e contribuíram para certas reflexões e situações ficcionais em meus livros posteriores.

– Entre suas obras literárias em francês, sua última obra, Le Nom des Rois (O Nome dos Reis), foi pré-selecionada para o Prêmio Goncourt, o galardão literário mais prestigioso da França. Em que medida essa história explora o imaginário coletivo do Líbano e sua influência na identidade?

Le Nom des Rois (O Nome dos Reis) conta a história de um jovem — eu mesmo — no final da adolescência. Sua adolescência termina precisamente quando a Guerra Civil Libanesa eclode. Esse jovem, ávido leitor de romances e aventuras épicas, fascinado por heroísmo e figuras como Napoleão e Alexandre Magno, de repente se vê diante de um mundo em que a violência se torna real e não está mais confinada aos livros. A guerra e o heroísmo lhe são revelados em sua verdadeira dimensão, em toda a sua brutalidade e violência, não mais épicas ou míticas. A adolescência do jovem termina ao mesmo tempo que o Líbano de seus sonhos, onde passou a infância, um país que também era, de certa forma, um mito. Este livro quase autobiográfico teve grande impacto no Líbano porque muitas pessoas reconheceram nele suas próprias experiências e viram refletido em suas páginas tudo o que sentiam sobre o Líbano, o mito libanês e a verdade sobre a guerra. Nesse sentido, acredito que despertou profundamente nosso imaginário coletivo.

– Vários de seus romances ganharam prestigiados prêmios literários. Ao escrevê-los, imaginou tal reconhecimento ou foi uma completa surpresa? E, o mais importante: o que significam esses galardões para o senhor?

É sempre gratificante receber um prêmio, que é o reconhecimento do seu trabalho. Não se trabalha ou escreve pensando em prêmios, porque isso distorce completamente o significado da escrita; mas o reconhecimento é sempre desejado, e os prêmios fazem parte dele.

– Pensando em trabalhos futuros, existe algum aspecto da cultura libanesa que ainda não tenha explorado e que gostaria de explorar?

Meu trabalho não consiste em documentar a cultura libanesa. Eu a analiso situando-a em contextos mais amplos ou abordando questões mais abrangentes, para as quais o Líbano e sua história servem como exemplos, como laboratórios. Os temas da transformação social e da transição de uma sociedade de uma época para outra são universais; ao longo da história, isso aconteceu em todos os lugares. Mas raras vezes, como no Líbano, houve tanta comoção em um século (a transição do Império Otomano para o mundo moderno; da primeira república para a guerra civil; da guerra civil para o pós-guerra; do pós-guerra para a crise), o que torna o Líbano um exemplo impressionante do que estou explorando.

– Teria interesse em investigar as histórias da diáspora libanesa e escrever um romance sobre o tema?

Com certeza. Já falei sobre isso em um livro intitulado Mille Origines (Mil Origens). Também abordei a sociedade libanesa no Egito e no Sudão em um romance intitulado Caravansérail (cuja tradução para o inglês, intitulada Moving the Palace, rendeu-me o Prêmio Khairallah da Fundação Khayrallah, que preserva a memória da diáspora libanesa nos Estados Unidos e em todo o mundo). E aludi à partida de meus tios para o Brasil e para a Argentina em meu primeiro livro, Histoire de la Grande Maison (História da Grande Casa).

– Em um panorama global complexo, as novas tecnologias apresentam oportunidades para a produção literária libanesa contemporânea e para sua difusão?

Se falamos de inteligência artificial, não creio que nenhum escritor preocupado com a originalidade de estilo e conteúdo a utilize, nem no Líbano nem em qualquer outro lugar. Quanto ao restante, é evidente que a literatura libanesa, assim como outras formas literárias, beneficia-se da difusão oferecida pelas redes sociais (YouTube, Bookstagram, BookTok etc.), bem como pelos livros eletrônicos e audiolivros.

– Considerando a enorme diáspora libanesa em países de língua espanhola, já considerou chegar a esse público específico publicando em espanhol?

Com certeza! Infelizmente, e por mais compreensível que pareça, o espanhol é um dos idiomas para os quais ainda não fui traduzido (ao contrário do inglês, alemão, italiano, grego ou árabe…), e isso me decepciona muito, pois não entendo essa falta de interesse. Mas espero que finalmente aconteça.

E, do outro lado do Mediterrâneo, os leitores de língua espanhola — especialmente a diáspora libanesa na América Latina — aguardamos com interesse as edições em espanhol das obras de Charif Majdalani.

A presente entrevista, realizada pela Me. Marisa Avogadro Thomé, foi publicada originalmente em espanhol na revista Diafanís, em 5 de fevereiro de 2026.

SOBRE O AUTOR

Charif Majdalani

Nascido em Beirute, em 1960, Charif Majdalani é escritor, romancista e professor libanês. Após realizar seus estudos na Université de Provence, na França, concluiu sua tese de doutorado em 1993. É professor na Universidade Saint-Joseph de Beirute, onde foi diretor do Departamento de Literatura Francesa de 1999 a 2008.

Entre 2005 e 2020, publicou oito romances em francês, traduzidos para sete línguas: Histoire de la grande maison (História da Grande Casa – 2005, pré-selecionado para os prêmios Renaudot, Fémina, Médicis e Wepler); Caravansérail (Caravançará – 2007, galardoado com o Prêmio Tropiques e o Prêmio François Mauriac da Academia Francesa); Nos si brèves années de gloire (Os Nossos Tão Breves Anos de Glória – 2012); Le Dernier Seigneur de Marsad (O Último Senhor de Marsad – pré-selecionado para os prêmios Renaudot, Fémina e Médicis); Villa des Femmes (Vila das Mulheres – 2015, pré-selecionado para o Prêmio Fémina e galardoado com o Prêmio Jean Giono e o Prêmio França-Líbano); L’Empereur à pied (O Imperador a Pé – 2017); Des vies possibles (Vidas Possíveis – 2019); e Beyrouth 2020: Journal d’un effondrement (Beirute 2020: Diário de um Colapso – 2020 – Prêmio Especial do Júri do Prêmio Fémina). Seu romance Dernière oasis (Último Oásis – 2021) foi publicado posteriormente. Seu mais recente romance, Le Nom des Rois (O Nome dos Reis), foi publicado em agosto de 2025 e pré-selecionado para o Prêmio Goncourt.

Charif Majdalani é membro do conselho editorial do L’Orient littéraire, colunista do jornal La Croix e presidente da Casa Internacional de Escritores de Beirute.

Escritora, jornalista, e conferencista, de Mendoza, Argentina. Mestre em comunicação e educação (UAB). Sócia-correspondente na Argentina para a Academia Líbano-Brasileira de Letras, Artes e Ciências. É diretora e editora da revista internacional “Diafanís", Arte, Ciência e Comunicação.

1 Comment

  1. Agradeço à “Revista Líbanus” e à Academia Líbano-Brasileira de Letras, Artes e Ciências do Rio de Janeiro, Brasil, pela publicação da minha entrevista com o Dr. Charif Majdalani. Foi uma honra colaborar com vocês.

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